Ele não vem hoje, vais ver! – disse Ana com um olhar de
esperança no olhar que contrariava as palavras acabadas de pronunciar.
- Porque dizes isso? – perguntou Rita enrugando o semblante!
- Se
quisesse vir ter comigo não tinha ido sair até de madrugada! Logo vai estar
muito cansado e vai dizer que não está em condições de fazer a viagem!– disse
Ana encolhendo os ombros e abanando a cabeça fazendo com que uma mecha de
cabelo lhe viesse parar ao rosto. Afastou o cabelo para trás da orelha e continuou,
mais em tom de suplica que a responder à questão – não quer saber, o amigo das
saídas noturnas está chateado com a
namorada e ele tem de aproveitar para sair até de madrugada e chegar
bebido e a tresandar a tabaco, depois de se ter metido com meia cidade.
- Não
digas isso amiga!
- É
verdade, foi sempre assim e vai continuar a ser! Aqui a idiota é que tem a
culpa! Ele nunca me enganou, nem nunca prometeu nada! apenas em regime de time sharing, enquanto tem de estar em trabalho,
em Lisboa!
- Não
te desvalorizes! Por favor! – disse-lhe com as mão no ar em sua direção - Mas afinal
queres que ele venda hoje ou não!
-
Eu!- disse Ana, colocando dedo indicador da mão direita sobre o peito – Eu
queria que ele se tivesse deitado cedo, que se tivesse levantado para ir fazer
de filho perfeito para ao pé da mãe, mas sempre a pensar em vir ter comigo!
Queria que tivesse saudades minhas! Que chegasse, me abraçasse e me dissesse
que me ama! – sim era o que eu queria, mas não tenho! – disse por fim, baixando
a voz e a cabeça para limpar a lágrima que teimava em cair do canto do olho.
- Sou
uma idiota!
E,
baixou novamente a cabeça por entre as mãos abertas e tensas.
- Não,
não és, apaixonaste-te! – disse Rita em tom de conclusão!
- Pois
não devia! Não tenho tempo nem tenho idade para estas merdas, disse por entre o
soluço que não mais conseguia conter, na garganta seca!
Porque
diabo a vida lhe era tão ingrata? A questão era sempre a mesma: o que tinha de
errado? Perguntava-se, constantemente e vezes de mais, o que tinha de errado! Porque
parecia que nada dava certo, que tudo na vida lhe era retirado, antes mesmo de
o ter.
- Não
tens nada de errado! – disse-lhe Rita, quase adivinhando o que lhe ia na cabeça
– ele é que é parvo que não sabe dar valor ao que tem!
- Não,
não é! Eu é que sou completamente idiota que o deixei entrar na minha vida e
não devia! Devia de ter mantido a distancia como ele faz! Ser só um time
sharing!
- E,
tu grande como és lá conseguirias ser assim!!!
- Então
não o devia de ter deixado entrar na minha vida.
A voz
rouca e embragada suou em tom de desabafo. Mas a maior tontice, o que a fazia
sentir mais desiludida, é que tinha acreditado. Pela primeira vez tinha sentido
dentro de si que o olhar de paixão, as palavras sussurradas no momento da loucura,
eram verdadeiras. E, afinal não era nada, era apenas ilusão. E, apenas a
ilusão era perfeita!
-
Maria -

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